Domingo, Maio 04, 2008

Baianidades

- Ae man!
- Êa...
- Colé puta, fez o quê ontem?
- Vei, dei uns rolé no shops.
- Bala.
- E você putinha?
- Levei minha nêga no motel.
- Ah Puta! Se armou miserê!
- É... e cê tá na zinca né pai?
- Vassfudê viado...
- Dê mole não vú.
- Tô ligado.
- Quando uma mulé der mole derrube logo!
- Sei.
- Rapaz... miscute.
- Man, vá caçar um jegue, cara chato.
- Tá nervosinho, é?
- Nervosinho de cú é rôla.
- Lá ele.

*onomatopéia-de-sinal-de-elevador*

- É meu andar, falou.
- Falouviado.
- Oi?
- Nadanigrinha.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Passageiras Paixões

Ela chegou assim, do nada. A condução estava quase cheia. Mas havia outros lugares vazios. Ela sentou do meu lado. Pasmei. Geralmente, só bêbados sentam logo ao meu lado. Nãi sei porque. Meu desodorante é até cheirozinho, e meu perfume é importado - barato, mas importado. A mochila dela esbarrou em mim, estava cheia, não pediu desculpas, não foi nada. Estava ouvindo música, bem alto. Tão alto que eu soube que música era. Boa música. Olhei p'ra ela. Ela não me olhou. Observei de canto de olho. Mochila azul da company, sem muitos penduricalhos. Calça jeans, tênis, e casaco azul. Tirou o livro da bolsa. Li o nome design. Olhei mais um pouco. Short Cuts. O livro era inglês. Danada.

Chegou assim do meu lado, de mochila liberal, de roupa comum, com um livro de design, ouvindo música boa, e lendo em inglês. Linda. Como nunca vi. Não era magra, não era gorda. Era fofinha. Usava óculos. Me apaixonei.

É muito p'ra mim. Não consigo tirar o olho. Fiquei com medo dela se assustar. Era mentira. Só podia ser. Pensei em falar com ela. Não tive coragem. Nunca tenho. Só uma vez. Quis provar a mim mesmo que eu era capaz. E provei. Levantei-me e entreguei um papel com meu contato. Meu coração quase pula. Ela fez cara de indiferente. Tive coragem, mas não tive retorno. Eu poderia fazer de novo. Mas não fiz. Ela se levantou, e pelo lugar, e pela hora, e pelo livro, imagino com certeza o seu destino. Ela se foi. Perdi um amor.

E olha lá, aquela garota que está entrando. Linda. Sandália rasteira, saia longa e pulseira de corda. Perfeita, encantadora. Me apaixonei.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Incomoda sim! - Parte I

Ritinha, nascida no Pernambuco, criada no Ceará, e agora tentando a vida em Salvador, vive à procura de uma oportunidade. Um dia desses, ela estava no ônibus indo para uma entrevista de emprego. Leu muito antes, entrou na internet, pesquisou como se comportar na entrevista, como se vestir e tudo mais. No meio da viagem, embarcaram então, três pessoas estranhas. Aliás, duas. Usavam lenços na cabeça de forma que a cobrisse por todo, deixando à vista apenas o rosto. Este, era coberto quase pela metade por um óculos bem extravagante.
Uma delas, sentou-se do seu lado, e conversou com a outra que estava à frente. Ritinha, muito esperta, tentou ouvir a conversa, mas nada entendeu. Pensou que sentiu uma vertigem. Fazia muito calor. Ritnha se abanava com as mãos de modo a incomodar qualquer um. Fazendo sempre sons para demonstrar sua impaciência e insatisfação com a temperatura. Ficou intrigada com aquelas mulheres. Naquele calor intenso, as duas amarradas de lenços. Deve tá quente pro diaxo ali dentro, pensou Ritinha. E decidiu puxar uma conversa.

- Tá calor ai não mulher?
- Hum?
- Calor!
- What?
- Que uát...Tô perguntando se você não sente calor, com esses panos ai!
- I do not speak their language.
- É o que mulher?! Deixe de manha e me responda logo...
- I'm sorry, i can't understand.
- Gente, acuda aqui! Essa mulher tá engasgada com alguma coisa! Rápido!

Ela tentou tirar os lenços da senhora, pensando estar incomodando. Aquelas duas mulheres, se não percebeu, eram do Oriente Médio. De onde? Bom, não se sabe de que país, mas se soubesse não faria diferença. Se dizem africano é tudo igual, muçulmano também é.
Prosseguiu-se aquela confusão.

- Raálála´la´lrarrrálala...
- Ixi gente, socorre! A mulher vai morrer!

Muita gente se levantou para ajudar. Ritinha não desistiu. Os amigos muçulmanos também não. Um moleque, provavelmente viciado em televisão, gritou:

- O homem bomba vai explodir!

Pânico geral. Correria. Ritinha ainda resiste em puxar os lenços da pobre mulher. A multidão enfurecida descontrolada estava para destruir aquele ônibus.


Continua.

Sábado, Abril 19, 2008

Palavrão é Liberdade

Como xingar bem cedo: Acorde. Acorde, todo suado. Acorde todo suado e louco p'ra tomar um banho. Descubra que a água, desde a tarde de ontem, não chegou na sua casa. Lembre-se que você tem uma trabalho de equipe na mão pra entregar na universidade. Tente pensar um pouco como vai fazer para se lavar, e vá comer. Descubra que a comida mais gostosa disponível é um biscoito cream-cracker daquela marca que você não gosta. Não há pães. Não há leite. Queijo e presunto é coisa da Familia Real.
Agora, com fome, e quase fedendo, às 06:10h da manhã. Respire bem fundo. Sugue todo o poder da sua alma. E liberte do fundo do sua injúria, o palavrão mais sujo entre os habitantes de todos os planetas da Via Láctea.

- Bélgica!

Domingo, Abril 13, 2008

Metamorphosis Ambulantis

Leu um livro, e quis mudar de vida. Dali em diante ficar pirado foi mais fácil do que imaginou. Deu a sorte (ou azar) de ler um livro muito bom, e quis levar tudo então como propósito de vida. Não teve consciência dos perigos que corria. Fazer do livro um manual da sua vida foi um objetivo assaz arriscado. Livros ensinam muitas coisas boas e também coisas não tão boas assim. Aconteceu de ler um livro tão bom, pessoal e convincente (propositalmente ou não) que o pôde transformar-se rapidamente de uma pessoa normal para um doido, chato, bitolado, e não mais simpático. O livro discutia sobre teorias que discordam dos hábitos (e opiniões) comuns da maioria das pessoas, e porventura do seu círculo de amizades. Teria que saber lidar com isso, pois de repente pôde se tornar um livro ambulante. Todo o seu dia poderia girar em torno dos dizeres daquele caderninho com lombada cheio de letras bem organizadas e impressas em série. Não se conteve. Achara que seria mais feliz. Não houve tempo de desistir.
Estrepou-se.

Sábado, Abril 05, 2008

Picolé Mineral, Agá-dois-ó Salgado, Quatro é Um Real!

Pícolé aí, olha. Agua Mineral, copão é cinquenta e tá mais gelada que o picolé. H2OH! é o sucesso do verão. Amendoins salgado, Mendorato é cinquenta. Chocolate Nestlê, a barra é três.

O serviço de bordo mais completo (e barato) do mundo. É o passatempo da viagem, assim eles insistem. Se ainda não conhece, entre num ônibus em Salvador - de preferência em alguma grande estação, aguarde alguns instantes e espere eles entrarem em ação. O cardápio é variadíssimo. Para beber tem água mineral, refrigerante, H2OH! e pra quem não gosta de calorias, tem o citrus também. Pra mastigar temos o amendoim salgado, um pequeno pacote de prazer que custa cinquenta centavos, a jujuba sai a quatro por um real, muito docinhas e saborosas, e quando bate aquele calor, o picolé sai a gosto de uva-côco-mangaba-caju-acerola-maracujá-etc. Não esqueci das deliciosas barras de chocolate, outrora meio derretidas, mas ainda sim de bom proveito. Pamonha quentinha, bala de gengibre, caneta que não falha, adesivos coloridos, sachê aromatizado e muito mais constroem o completo serviço.
Se você ainda não foi tocado e não abriu a carteira, espere alguns instantes, por favor, para que se iniciem os anúncios tentadores. O menino chorou? Compra o chocolate p'ra ele. Chorou de novo? Compra uma bala p'ra ele. Chorou mais uma vez? Dá um tapa na cabeça dele, q'esse menino tá com manha. Alguns arriscam uma paródia de músicas conhecidas. Olha a gande bala do negão, a bala, a bala, a bala do negão. Ás vezes, de tantos anúncios ao mesmo tempo, é possivel ouvir um picolé salgado, uma jujuba de côco ou uma agua mineral de três por dez. Acredito que alguns devem ter feito o curso de como ter uma voz insuportável e irritar todo mundo. Mas, em maioria são bem simpáticos e sorridentes, tentando fazer você sacudir umas moedinhas no bolso e fazer o dia dele mais feliz. Já passei por muitas gargalhadas com baleiros criativos, já fiquei pensativo quando alguns contaram certas histórias dentro do ônibus. Sei que muitos são mentirosos, mas alguns não são. Há o violeiro que toca Marisa Monte e Roupa Nova como jamais vi nenhum cantor fazer. Há o sanfoneiro cegueta que sabe de cor a letra da eterna Asa Branca. Tem a senhora simpática e sorridente que agradece com todo o seu coração por você ter ouvido ela sem pestanejar, mesmo sem ter comprado nada. Aquele pequeno malandrinho, que sugere a troca de umas moedas por um bom comportamento na escola, anda meio sumido. Vez ou outra encontro uns meio desajeitados dizendo que poderiam estar matando ou roubando, mas estão pedindo. Podem não ser nada criativos, mas tentam ser sinceros e honestos.
Espero que o baleiros continuem a vender nos ônibus de Salvador, espero que eles tenham melhores condições de vida também. Eu adoro amendoim, e me lambuzo com um picolé no sol de meio dia. Se não fossem os baleiros, não poderíamos consumir esses produtos sem ir a algum supermercado ou doceria. Eles trazem a você, tudo de bom, bonito e barato.
Seja o picolé da saúde, a jujuba passatempo ou o chocolate molengo, o que muita gente considera um saco em toda viagem, é a tentativa honesta de sobrevivência para muitos. Lembre-se, eles poderiam sim estar (te) matando ou (te) roubando.

Sábado, Março 29, 2008

Sob a Condição de Progresso

Acometido de tremenda dor de cabeça, estava calmamente a pensar, sobretudo nas suas escolhas. Chegara então a arriscada decisão, mas bem vinda conclusão. Arriscaria-se, pois não tinha muita idéia de como seria dali à frente. Teria que saciar a vontade de escrever tolices nos rascunhos, de maneira a não ser vista. E apesar da irrefutável mania de querer ser dono de graças, publicaria só o que fosse considerável e depois de revisado. Tendo em vista o seu número mensal de visitas, num gráfico que desceu a rampa, e percebido que o número de comentários quase se deixou de existir, pela segunda vez na vida decidiu reformá-lo. Da última vez funcionou e melhorou bastante. Desejara ainda mais. Menos pessoal, mais profissional. Menos coisas metidas a ver graças, coisas mais elaboradas (porém, ainda cômicas). Lembrado Lispector e já então desconfiado das vantagens em ser um bobo, escreveria como um somente na impreterível condição de ser um respeitável, e não mais chato que este conto metido à sério. E fineza será se não confundir um bobo com um burro, um inútil. Quanto ao titulo principal, não será mais este provavelmente.

Por vez, é só isso.

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Enquanto não renovo, visite:

Sexta-feira, Março 28, 2008

Abaixo Daqui, Só Velharia

MEMORANDO

Do total de 46 postagens,
abaixo daqui, estão apenas 15 posts que decidi ainda mostrar.

As outras preferi que fiquem escondidas.

Domingo, Dezembro 02, 2007

Você tem cara de inteligente!

Essa é a frase que eu mais ouvi até hoje na minha vida (se não fosse na minha vida, onde mais seria?). Sempre que conheço alguém é assim. Geralmente me falam isso um pouco depois de me conhecer, quando estamos ter uma conversa. "Poxa, você tem cara de inteligente!". Quando perguntam meu nome, ai que piora. "É Gutemberg". "Pooooo, inventou a imprensa hein!". Que piada chata.
Foi mais engraçado quando um amigo me apresentou a uma menina e disse, "esse é Gutemberg, o inventor do telefone". Filho da puta, se Graham Bell ouve isso ele te pega!
Quando criança eu odiava meu nome. Queria ser um João, Carlos, André, Rafael... um nome comum na multidão. Todos os professores me davam mérito pelo nome. Depois de 'crescido' me apresento como Guto. É melhor. Foda é quando alguém fica com vergonha de me chamar de Guto (porque é apelido) e me chama de Auguto, Gustavo, Guilherme... Sempre tenho que corrigir. "É Gutemberg!". Mas tem gente que nunca aprende. Minha dentista era o cúmulo. Ela me chamava de Raphael. Mas eu achava engraçado. Meu nome, de quebra, não tem um significado legal. Gut - homem bom, berg - montanha. Algo como homem-motanha-da-bondade. Bonzinho é o cacete! Que merda! Uma mãe de um amigo chega a me chamar de ANTONIOBERGUE...isso derivou o apelido de 'tonho'. Mais curto e a cara de borracheiro.

Me chamar de inteligente não ajuda. Se as pessoas olhassem pra mim e dissessem: "Nossa, você tem cara de burro", acho que eu estudaria mais. Pra completar eu ainda uso óculos. Quando usei lentes de contato, a frequência com que a garotas olhavam pra mim aumentou e muito. Não sei porque estou usando óculos ainda. Na verdade, isso é uma construção de auto-estima. Auto-aceitação. Eu sou magro, uso óculos, minhas orelhas se destacam, e me chamo Gutemberg. Eu já gosto do meu nome. Mas, a coisa tá melhorando. O número de pessoas que me chamam de Gutemberg tá bem pequeno. Geralmente é Guto ou Gu. Bem melhor assim né?! Guto não é muito encontrado e Gu tem cara de garanhão, que come todo mundo. Só se for cara. A mesma coisa de inteligente. Posso até ser(eu como, cago e atravesso a rua sozinho), mas a expressão no rosto de quem diz é como se eu fosse uma fusão de Aristóteles e Descartes.

Quer me agradar? Não me chame de inteligente. Se estiver na dúvida em me chamar de "cara de inteligente" ou "cara de desgraça". Escolha a segunda só tiver certeza de que vou achar engraçado e não vou te bater. E, prefira não escolher a primeira.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Vivendo Sem Moderação ou Como Sair da Rotina


Estava pensando: Do que eu preciso, agora?
Preciso de algo que me faça bem, que me liberte, que me faça esquecer de tudo o que há de ruim em mim e nos outros. Preciso de algo divertido, regado á irresponsabilidade* e amigos. Calma, eu não vou fazer uma orgia gay com meus amigos. Não mesmo. Se incluirem pessoas do sexo feminino, e desde elimine-se o GAY, ou seja, que não haja proximidade entre os machos, eu aceito. Tem tempo que não me divirto muito. Muito, mesmo. Aquilo de comentar o mês inteiro. De contar p'ros netos e se encher de orgulho. De contar p'ros outros e ver olhos arregalados. De ser lembrado como majestoso. Preciso dizer verdades a algumas pessoas que não suporto. Preciso dizer algumas coisas a mim mesmo. Mesmo que seja aquela verdade dolorosa, sem volta e nem perdão. Preciso matar aula. Preciso dar cinquenta reais à um mendigo. Preciso me comunicar com um ser superior. Preciso ser humilhado e humilhar alguém. Preciso de amigos que querem sair na noite, e fazer com que todas as pessoas saibam qual é nosso nome. Preciso provar de todas a bebidas de um bar. Preciso xingar alguém e ser odiado. Preciso dizer eu te amo, mesmo que estas palavras sejam sinceras, pra ser amado. Preciso cair e levantar.

Preciso acordar, e não lembrar de nada que aconteceu no dia anterior, e ter minha vida normal de volta.
*irresponsabilidade - saudavelmente irresponsável.